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Escrito por FORMIGA   
Terça, 03 Maio 2011 22:16
Histórias vividas
A necessidade aguça o engenho
Em jeito de introdução
O desenrascanço é uma
característica genuinamente portuguesa! Largamente utilizado em todas as
épocas, “desenrascar” foi nas campanhas de África uma constante no quotidiano
de quantos tiveram que fazer face às insuficiências da Logística e à escassez
de recursos do País.
Quem não se lembra da
invariável resposta do chefe militar perante uma qualquer dificuldade posta por
um subordinado e para a qual não tinha solução imediata. Solução não tinha mas
a resposta surgia pronta:
-
Quero lá saber! “Desenrasque-se”!
E lá se ia inventar
algo que para surpresa de todos acabava por funcionar.
Podemos tentar definir
esta prática pela negativa contrapondo-a ao conceito norte-americano do “by the book” em que só se faz, se
estiver previsto e exactamente na sequência em que está escrito.
Só assim se explicam
tantos dos seus insucessos em operações militares onde o imprevisto aconteceu e
o desenrascanço não pode ter lugar, por essa “palavra” não fazer parte do seu dicionário.
Um dispositivo “sui generis”
Em 1973/74 o destacamento da Esquadra de helicópteros no
AM 51 (Mueda, Cabo Delgado, Moçambique) era constituído por 6 AL III, número que
representava mais que 50% da prontidão possível. Dada a escassez de meios, dificilmente
se conseguiam mais que nove máquinas prontas para operações numa frota que
tinha 15 helicópteros atribuídos
A Esquadra suportava ainda mais dois destacamentos: Vila
Cabral (2 Al III) e a Beira.
Em Mueda o destacamento contava sempre com a presença do
comandante da esquadra ou do seu oficial de operações, que alternavam entre si
quinzenalmente.
Faziam ainda parte dos meios aéreos destacados em Mueda, quatro
Fiat G91, dois T- 6 Harvard e dois Dornier DO-27, que constituíam a maior parte
da força operacional do Aeródromo Base nº 5 em Nacala, a unidade aérea mais
importante do norte de Moçambique mas que funcionava apenas como base logística.
Este dispositivo resultava
do facto de ser em Cabo Delgado que se fazia o maior esforço operacional, já
que a implantação do inimigo estava ali ao lado de Mueda, a não mais que dez km
em qualquer direcção que se rumasse.
Daí a razão de ser do dispositivo.
Concentração de meios onde mais se justificavam, para uma
intervenção rápida e mais frequente. Esta é sem dúvida a melhor maneira de
aplicar helicópteros em combate à guerrilha. Objectivos a não mais de 20
minutos de tempo de voo.
Com isso conseguia-se uma poupança de horas muito grande,
já que o AB5, distava mais de 200 milhas náuticas (cerca de 2h/voo) do coração
da guerra.
Os meios aéreos em Mueda estavam permanentemente prontos
para operações! Qualquer avaria não reparável localmente, implicava a sua
substituição de modo a manter a totalidade da força destacada sempre pronta para
operações.
A manutenção programada dos aviões fazia-se no AB 5.
Quanto à esquadra de helicópteros, por ser força operacional
dependente do Comandante Chefe das Forças Armadas de Moçambique, estava sedeada
em Nampula. Ali os helicópteros faziam a manutenção de 2º e 3º escalão a cargo
de uma equipa de funcionários civis das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico.
Estas equipas constituídas por jovens técnicos, que assim cumpriam o equivalente
ao serviço militar obrigatório, faziam todas as inspecções que os AL III
requeriam, sem necessidade de virem à metrópole e poupando-se deste modo
muitos meses de imobilização.
Uma
Operação
 
Porque os meios aéreos
estavam em Mueda, eram planeadas semanalmente operações em cooperação com as
unidades do Exército. Os objectivos a atacar variavam de acordo com as
informações obtidas, com os efectivos a empenhar e a experiência da tropa em
ambiente de combate.
Para os “Índios”,
designação dos elementos da esquadra de ALIII, os locais mais difíceis (e a
dificuldade traduzia-se pela reacção pelo fogo a qualquer incursão dos meios
aéreos) encontravam-se nas nascentes do rio Muera, o objectivo da grande operação
Nó Górdio determinada pelo então Comandante Chefe, General Kaúlza de Arriaga.
A operação referida neste
episódio foi planeada a nível dos comandos do Exército e da Força Aérea em
Mueda, na sequência de informações fornecidas por um guerrilheiro capturado que
referiu a chegada à “Base Moçambique” de importante quantidade de material de
guerra.
Considerado que era
muito urgente explorar a informação sem perda de tempo, foi decidido colocar um
grupo de combate bem em cima da Base “Moçambique C” num pequeno vale onde o rio
Muera nascia. Este grupo seria reforçado com um segundo, se o desenrolar da
acção assim o justificasse e a colocação seria precedida pelo bombardeamento dos
Fiat’s e T-6.
A zona do objectivo
era um local “quente” ao qual se ia com bastante apreensão pois os macondes, ao
mesmo tempo agricultores e guerrilheiros tratavam da machamba de “Kalash” (AK47)
às costas. Tinham o ouvido apurado e o dedo do gatilho muito ligeiro, razão
porque se voava muito baixo, junto à copa das árvores para reduzindo assim o
tempo de exposição do helicóptero aos tiros das armas dos guerrilheiros.
No “briefing” feito no
dia anterior foram definidos, a HSO (hora sobre o objectivo) para o
bombardeamento prévio dos aviões e hora de entrada dos helicópteros para
colocação do grupo de combate.
Para não interferir
com o tempo de bombardeamento dos Jaguares (Fiat’s), o fim do bombardeamento
seria definido pelo Índio 1 quando em aproximação, reportando 30 segundos antes
do objectivo.
O briefing terminava
acertando os relógios ao segundo, de todos os intervenientes.
Quanto aos
helicópteros, o procedimento era o habitual. O Índio 1, armado com um canhão MG
151 de 20mm, garantia pelo fogo a segurança dos transportadores, definia a
direcção de aproximação para colocação do grupo de combate, o espaçamento em
segundos que os helis iriam manter entre si na final e que era função do espaço
livre de obstáculos no local da colocação.
O Índio seis, último
da formação também armado, quando fosse feito o reporte de “30 segundos fora”
afastar-se-ia para entrar mais largo e proteger o flanco direito do Índio um.
Este era o
procedimento normal nas colocações em heliassalto.
Não podia haver lugar
para hesitações. Esta sequência da entrada e saída do objectivo tinha que
acontecer rapidamente num máximo de dois minutos findos os quais ficariam na
zona os dois canhões por mais alguns minutos protegendo o grupo de combate no
terreno, até que estivessem organizados. Depois disso ficavam por sua conta.
Contudo nem sempre acontecia como planeado e desejável.
Quando assim era, havia que tomar decisões rápidas em cima do objectivo,
evitando criar dificuldades aos pilotos ou ao pessoal no terreno.
Foi o que aconteceu dessa vez!
E então…
foi preciso “desenrascar”
Descolámos 20 minutos antes
da HSO dos Jaguares que a essa hora já estavam no ar descolados de Porto Amélia.
Era o tempo que nos iria permitir estar no objectivo “ ao segundo” e a tempo de
ver o pó dos rebentamentos.
Voando a nº 1 fui
revendo os pormenores que se seguiriam. Seguimos a picada até Miteda voando
muito baixo tentando evitar sermos detectados muito cedo. Na frequência rádio
comum para o objectivo (VHF/FM-49.0) ouvi o Cap. Costa Joaquim – Carola -
comandante da esquadra dos Fiat’s começar a fazer os “cheques em voo” com os
seus asas!
Numa pausa reportei
para dar a conhecer a nossa posição.
- Jaguares, bom dia. Índios a cumprirem
o ETA[1].
- Bom dia ! Jaguares operações normais!
Time check… 56 minutos
Dava-nos a saber que
também eles iriam cumprir a hora no objectivo e que o seu relógio indicava
nesse momento 5h 56m. Faltavam 4 minutos para iniciarem o bombardeamento
-
Jaguares! Ligar armamento!
E as respostas dos
asas no segundo imediato.
- Dois!
- Três!
- Quatro!
- Jaguar Um!
Seguiu-se aquele
silêncio tenso que antecede a acção.
Estávamos agora em
Miteda a cinco minutos do objectivo, tempo suficiente para os passes dos Fiat.
Rumei a norte e na aproximação à zona iria orientar a navegação pela direcção
das sucessivas “entradas ao passe” de cada um dos Fiat. Como iriam usar bombas
de fragmentação só veríamos o local quando se avistasse a poeira dos
rebentamentos.
Entretanto na
frequência comum ouviu-se o reporte do Jaguar 1.
- Objectivo
à vista.
Uma curta pausa e;
-
Jaguar um, dentro!
Mais
uns segundos e…
- Um
fora.
- Dois,
dentro!
- Três
dentro.
- Dois
fora.
E assim foram
acontecendo os passes !
O terreno
anteriormente plano, começava agora um declive suave de uma das muitas linhas
de água da zona. Já se via o fumo e poeira dos rebentamentos.
E foram-se sucedendo
os passes até que reportei!
-
Jaguares, Índios;
-
Objectivo à vista! 30 segundos fora!
Um Jaguar reportou “fora”
e o nº 1 informou:
-
Jaguares abandonam!
Estava agora à vontade
para entrar no objectivo.
Nos segundos que se
seguiam os “turras” estariam com a cabeça metida no pó. Mas como eram Macondes
não tardariam muito a reagir.
Uma vez no objectivo constatei
não haver nas imediações qualquer clareira onde pudesse meter um helicóptero e
a vegetação embora baixa não permitiria a aterragem!
Iria ser um salto com
algum risco pois o terreno também era inclinado. Fazendo a largada
perpendicular ao declive permitiria aos pilotos ficar com o rotor de cauda
livre de obstáculos, mas teriam que ter cuidado com as pontas das pás e haveria
de provocar alguma hesitação no pessoal que ia saltar para cima de arbustos que
não lhes permitia ver a altura do salto. Seria mais difícil mas fazível. E
nesta altura não podia haver hesitações.
Teria por isso que
determinar um maior espaçamento entre helicópteros para que largassem todos no mesmo
local e assim não dispersar o grupo de combate.
- Índios, 15 segundos de espaçamento.
-A partir de agora, não dão entendido às minhas.
Prossegui
com as instruções.
- Índio 2 alarga
pela direita.
- Três e quatro
fazem 360º pela esquerda, em coluna, abrindo… agora!
- Índio 6 circula
largo ¼ de milha.
- Meter a roda de nariz dentro dos arbustos. Darei
informações sobre o rotor de cauda.
- Abrir portas no início da final.
- Lembrar que só saltam “à voz” !
- Todos
largam no mesmo local no arbusto rasteiro à direita da árvore de copa plana!
-
Maguila, entendido?
-
Maguila!
E voei na direcção ao
local de largada para mais fácil visualização simulando a direcção que deviam
tomar na final para a colocação.
Com
estas instruções pretendia:
Aumentar o espaçamento entre os helis fazendo
uma separação de 15 segundos entre os transportadores evitando que ficassem em
estacionário na final
A volta em coluna obrigava a que o
Índio 4 tivesse o 3 sempre à vista.         Que
fizessem aproximação perpendicularmente à inclinação do terreno forçando a roda
de nariz dentro dos arbustos.
Mandar abrir das portas no início da
final para que não houvesse tempos mortos.
Que fosse dito que o salto seria “à
voz do piloto” isto para que os militares não entendessem o mandar abrir portas
como ordem para saltar, como já tinha acontecido noutra ocasião.
Finalmente
defini qual o local de largada indicando uma referência facilmente
identificável. Era um arbusto largo, plano, flexível e baixo ao lado de uma
“mikaia”.
-
Índio 2 final!
Foi a resposta do
“Maguila”, o primeiro dos transportadores indicando com três palavras que não
tinha dúvidas quanto ao local.
Quando já em
estacionário e porque não tinha visibilidade sabendo quão importante era para
ele, informei-o
- Índios dois, cauda livre.
Não tinha tempo para
responder nem era importante para os outros.
- Três dentro!
-
Dois fora!
-
Quatro dentro!
-
Três fora!
Seguiu-se uma pausa um
pouco maior.
Tinha o nº 4 à vista,
pelo que esperei pelo reporte.
- Jagudi
fora!
E passado mais uns
segundos
- Com
tudo à frente e à vista.
O Índio quatro reportava
agora com seu indicativo pessoal, informando que tudo estava normal. Ao fazê-lo
lembrava-me a sua identidade já que era importante saber “quem era quem “ em
cada momento!
A pausa mais comprida
foi o tempo que levou a localizar os outros três !
Esta era a ladainha do
costume. Informações curtas e precisas, fruto da grande concentração que cada
um tinha que manter mas que permitiam saber a sua localização no espaço e
tempo, fazendo-me uma “fotografia” sonora da manobra para que me concentrasse
na segurança muito próxima da tropa já no chão esperando que rapidamente se
organizassem.
A colocação tinha
demorado não mais que dois minutos. Excelente!
Faltava agora que no
chão se organizassem e dali para a frente iriam ficar entregues a si próprios.
Era espectável que
dentro de pouco tempo começasse a “chover” morteirada! Era normal acontecer e
muito desconfortável para nós em voo.
O outro canhão, o
Índio seis, fazia a segurança exterior orbitando no mesmo sentido numa posição
bastante crítica para ele pois era sabido que o perigo aumentava para fora do
local do bombardeamento e da colocação.
Os primeiros dez
homens do grupo de combate já saíam do local de largada progredindo para um
objectivo que não cheguei a visualizar. E eles no chão garantidamente também
não.
Os “transportes”
voavam à frente do Jagudi em direcção a casa enquanto os canhões se iriam
manter à vertical mais algum tempo até que tudo no solo se processasse
normalmente. Era um tempo curto mas angustiante.
Porque não consegui
descortinar prontamente a restante tropa largada, tive o pressentimento de que
algo tinha corrido mal! E da dúvida passei à certeza quando pelo rádio me chega
a informação de que um dos militares tinha feito uma fractura e que havia que o
recuperar de imediato.
Pensei em quem chamar
para fazer a recuperação e logo me decidi pelo número quatro, o Jagudi. Fora o
último a sair, estava mais próximo e de entre os quatro, tinha em minha opinião
as melhores características que a situação exigia.
Psicologicamente este
era o pior momento para um piloto de helicóptero!
Ter que voltar ao
local de acção depois de ter começado a descontrair.
Iria ter que fazer uma
manobra que não iria ser fácil!
-         
Maguila! Formiga…!
Chamava o chefe da
formação para o informar que queria o Jagudi de volta ao objectivo ao mesmo
tempo que tentava encontrar uma posição para o heli recuperar o militar ferido!
Chamei mas não tive
resposta!
Tinham passado pouco
mais de dois minutos e já não tinha comunicações com a formação. Nestas
condições a situação era crítica e podia transformar-se rapidamente em perigosa
para todos nós. Dentro de pouco tempo estaríamos a ficar debaixo do fogo dos
morteiros.
Voltei a chamar a
formação sem sucesso, mas enquanto o fazia já tinha tomado uma decisão. Mesmo
sabendo que o canhão não tinha espaço adequado para outro passageiro e que o
terreno não permitia a aterragem, aquele homem teria que sair dali e muito
rapidamente. Era muito perigoso estar ali mais tempo. Faria eu a sua
recuperação.
A adrenalina sobe e os
pensamentos correm em catadupa analisando o futuro imediato. Como o outro
canhão estava a par da situação, comuniquei-lhe a minha decisão. O arbusto do local
de largada não permitia subir o ferido para bordo por falta de consistência. Tinha referido aos
helis transportadores a “mikaia” uma árvore de copa plana como referência para
a sua aproximação ao objectivo. Seria a mesma que iria servir de almofada para
encostar o meu helicóptero enquanto esperava que o ferido fosse içado para
bordo.
Ao meu atirador
disse-lhe qual era a ideia, pelo que pretendia indicações que me afastassem o
rotor de cauda de obstáculos.
Uma vez assente na
copa da árvore, ela iria ajudar-me a manter uma posição estável até que o
ferido chegasse. O meu atirador era uma peça muito importante da manobra e
dependia dele e das suas indicações, o êxito da tarefa.
Ao outro canhão pedi
uma segurança que mantivesse visual o primeiro grupo já relativamente afastado.
O segundo, que estava comigo, se encarregaria de fazer a sua e nossa segurança.
Também para o outro
canhão não iria ser uma tarefa fácil! Depois de algum tempo no objectivo a
tensão aumenta exponencialmente pelo que podiam ser cometidos erros de
identificação Teria que por à prova a sua acuidade visual para não confundir pessoal
dos dois grupos em terra com eventuais guerrilheiros.
Fiz estacionário à
vertical da árvore plana e após sentir a copa, fui forçando com cuidado o heli
contra a sua ramagem, com a garantia dada pelo atirador de que o rotor de cauda
estava completamente livre de obstáculos.
Precisava agora de
sorte, para que conseguissem elevar o ferido até ao mecânico e este tivesse a
força suficiente para o içar para bordo.
E já agora precisava também
para que não começasse a cair “morteirada”.
Convém referir que a
parte mais simples iria ser a minha. Manter a máquina na posição sem forçar foi
mais fácil do que eu tinha imaginado. Era como se estivesse aterrado, com um
pouco de potência metida.
Esta operação durou
uns curtos três a quatro minutos mas que me pareceram uma eternidade! Ninguém
proferiu uma única palavra enquanto durou a manobra. Sei que transpirava e não
me podia limpar.
O “vamos” do meu
atirador provocou-me uma sensação de alívio indizível.
-
Conseguimos!
Foi a minha
descompressão emitindo para o meu mecânico o sucesso de podermos sair dali com
a missão cumprida!
O evacuado, um jovem
Alferes chefe do grupo, ar tristonho sem revelar qualquer dor (morfina?)
sentado na caixa de munições olhava para nós, meio agradecido meio espantado
sem perceber muito bem o que lhe tinha acontecido nos últimos 15 minutos.
Com um “vamos embora”
abalámos em direcção a Miteda para apanhar a picada, mantendo o tradicional
silêncio rádio.
Quebrou-o o meu asa
mais tarde, já na picada, para me dizer as palavras mais importantes que algum
dia ouvi ao longo dos 40 anos da minha carreira militar!
- Bem
“chefe”! Assim dá gosto trabalhar!
Respondi com o “clic”
rádio habitual. Mas também não sabia o que havia de dizer.
Simultaneamente o
atirador atrás de mim e que eu não via deu um toque no meu braço esquerdo como
que corroborando as palavras do “asa”. Anui com um movimento de cabeça. Os
louvores não se agradecem. E este foi sem dúvida o mais importante que até hoje
recebi
Senti um orgulho
imenso e havia algo na garganta parecido com dificuldade em engolir e respirar.
Um pouco emocionado,
valeu-me o tempo de voo que faltava para Mueda para recuperar.
Em tão curto espaço de
tempo tinha vivido uma confusão de sentimentos que não dá expressar por
palavras.
Aterrei no hospital e
volvidos cinco minutos estava de volta ao taxy-way de acesso à placa de
estacionamento onde me aguardava o piloto do outro canhão.
Saiu um abraço e dali…
para o bar!
Em tempo:
Parece-me justo deixar
aqui os nomes de alguns dos intervenientes.
O piloto do outro
canhão era o Alferes Reis. Algarvio de Portimão, viria a sofrer um acidente de
que resultou a sua morte no Médio Oriente voando ALIII ao serviço da empresa
aeronáutica francesa Sud Aviation.
O Maguila, o Alferes
Branco, anda lá para a outra banda do Tejo.
O Jagudi era o Alferes
Jorge Oliveira.
O atirador era o
sargento Gonçalves.
Não fumava para não
lhe tremer o dedo do gatilho! Nele não tremia nada aliás. Era um bravo.
Do Alferes do Exército,
como tantos outros feridos em combate que evacuei, não sei o seu nome.
Mas pode ser que um dia
venha a ler este relato e recordará este episódio da sua vida
Formiga


[1] ETA – Estimated Time of Arrival
Histórias vividas
A necessidade aguça o engenho
Em jeito de introdução
O desenrascanço é uma
característica genuinamente portuguesa! Largamente utilizado em todas as
épocas, “desenrascar” foi nas campanhas de África uma constante no quotidiano
de quantos tiveram que fazer face às insuficiências da Logística e à escassez
de recursos do País.
Quem não se lembra da
invariável resposta do chefe militar perante uma qualquer dificuldade posta por
um subordinado e para a qual não tinha solução imediata. Solução não tinha mas
a resposta surgia pronta:
Actualizado em Quarta, 04 Maio 2011 13:54
 
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