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Escrito por Administrator   
Sexta, 16 Novembro 2012 15:59
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Bate Estradas Nº 41
GELERA PÁ
ISTO SÓ EM MUEDA – TRÊS E OUTROS DEZ
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GELERA PÁ

 

Que linda a praia que se estendia pelo areal de Fernão Veloso. Valia bem a caminhada, efectuada
sob o sol abrasador que sobre as nossas cabeças lançava os seus raios, a que nem a sombra dos
enormes e folhados embondeiros e cajueiros, carregados de frutos em que sobressaia a sua
castanha de cajú que mais tarde separada do fruto, descascada e torrada ia fazer a delícia das
papilas que as usavam como aperitivo ao álcool forte da Escócia, á agua de Lisboa e até ás
Laurentinas e afins. Desde a porta traseira do AB5, até á praia, era paragem obrigatória a palhota
do velho Amisse, onde de encomenda podíamos deglutir o belo leitão, a galinha de mato e até
quando o dinheiro chegava um belo chacuti com gazelinha de mama que era um regalo de estalar a
língua e de afoguear os beiços atacados pelo sabor acre, apimentado forte, do gindungo que o
negro cozinheiro de mais de cem anos de experiência, dizia ele, com ênfase e muito orgulho tinha
ganho na casa do velho Administrador do Lumbo, onde acessorado pela D. esposa do Sr.
Administrador, mulher de sábios conhecimentos nas artes da culinária africana, lhe facultava
conhecimento.
Ainda hoje, parece que estou a ouvir as arengas do Amisse, quando nós estávamos sequiosos de
saborear o seu palrar português em que a palavra mais pronunciada e muitas vezes por nós
repetida, era a famosa ESVIDENTIMENTE. Tinha ele, além daquele jeito tremendo para cozinhar em
condições técnicas paupérrimas, um gosto por contar as suas estórias quando verificava que a
audiência sabia estar atenta e beber as suas palavras arrevesadas, na mistura nativa que resultava
num taramelar delicioso de escutar e fixar os tempos passados e que não mais iriam voltar.
Quantas vezes junto àquela palhota, arrumava as minhas ideias ao som da máquina de costura,
gasta e sequiosa de óleo, para acalmar o seu chiar alegre que as correias e rolamentos faziam a
cada pedalada que um alfaiate negro, o Zarolho, fazia com uma agulha provavelmente já muito
romba de tanto ponto ter dado nas capulanas e outros tecidos, nos quais se incluíam as camisas e
bermudas que os Zés Especiais, mandavam fazer e que alguns levavam, já prontas, com a promessa
de no fim do mês liquidar com a ajuda do pré e risco de voo, mas que ficavam por pagar, dada a
velocidade com que as frescas notas, trocavam de mãos ao sabor da brisa que soprava, inebriante e
sempre saborosa.
Quando cheguei, ainda checa, o Amisse tinha o seu frigorifico a que chamava GELERA PÁ e que
funcionava a petróleo, o qual nunca consegui descobrir se era mesmo petróleo ou algum liquido
que fazia movimentar os motores dos aviões que ali tão perto roncavam forte e redondo quando
rolavam em esforço pela pista a caminho dos ares, já mais fresco lá no alto, do que ao nível do
chão. Mais tarde, após a minha primeira missão em Mueda, já o Amisse se lamentava que tinha
ficado sem a sua GELERA PÁ, pois a mesma tinha deixado de funcionar e a tinha entregue para
reparar a um electricista de centrais, meu camarada de armas e que a troco de umas almoçaradas
bem comidas e bem regadas a tinha reparado, mas que logo breve deixou de funcionar e o
electricista também deixou de aparecer, vá-se lá saber porquê, lamentava-se o velho de mais de
cem anos de tantas experiências feito. Vá lá saber~se porquê.
E então o Amisse inventou uma substituta para a sua muito lamentada e saudosa GELERA PÁ.
Aproveitando a caixa frigorifica, a envolvia exterior e interiormente com folhas de palmeira, a
enchia de água e de tempos em tempos mudava as folhas de palmeira, trabalho efectuado por um
jovenzinho que também fazia de mainato, lavando e passando a ferro a parca roupa de muitos
militares da Base e assim tinha o velho cozinheiro cervezinha fresca para dessedentar quem lá fazia
as refeições e aqueles que passavam a caminho das areias douradas e maravilhosas de Fernão
Veloso.

Luís Henrique (Hica)



Actualizado em Sexta, 16 Novembro 2012 16:32
 
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